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Inf.08/713 - INFLAÇÃO – DESIGUALDADE É MAIOR Imprimir E-mail
Seg, 07 de Julho de 2008 21:00
Inflação para quem recebe até 2,5 salários mínimos chega a 9,11% em 12 meses e supera em 55% o aumento médio dos preços. População faz sacrifícios para manter a alimentação e a educação dos filhos

Apesar de ter sofrido uma leve desaceleração em junho, quando ficou em 1,29% (ante 1,38% em maio), a inflação que atinge a população de baixa renda fechou o primeiro semestre com alta de 5,97%. O índice, que calcula os aumentos dos produtos consumidos por famílias que recebem entre um e 2,5 salários mínimos (R$ 415 e R$ 1.037,50), é 1,55 vez (55%) superior à inflação de toda a população, que nos seis primeiros meses de 2008 soma uma alta de 3,84%. No acumulado dos últimos 12 meses, o Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1), medido para a Fundação Getúlio Vargas (FGV), está em 9,11%, um recorde desde que o indicador começou a ser calculado, em janeiro de 2004.

Na avaliação dos economistas, a baixa renda está sendo mais castigada em virtude da disparada no preço das comidas, que têm peso maior justamente para quem ganha menos. Enquanto para a população em geral o item alimentos consome 27,49% do orçamento mensal, para quem ganha até 2,5 salários mínimos o peso chega a 39,62%. No primeiro semestre, a alta do grupo alimentação foi de 12,02%. Nos últimos 12 meses, chega a 18,88%. Desde junho do ano passado, por exemplo, o feijão carioquinha acumula elevação de 137,51%. Outro item muito presente na mesa dos brasileiros, o arroz branco, subiu 45,78% no período. As carnes bovinas também estão bem mais salgadas: 44,13%.

Balconista de uma padaria, Fabrícia Santos Souza, 24 anos, sabe bem o que é ver a conta do supermercado pesar mais. Para garantir a qualidade de vida da filha de 3 anos, ela se dispõe a alguns sacrifícios. Um deles foi diminuir a quantidade de leite consumido na casa. A prioridade é da menina. Outros luxos deixados de lado foram os cortes de carne como a bisteca e o filé de frango. “Com esses preços do jeito que estão, eu vou uma vez ao mercado para evitar gastar mais do que posso”, revela. Exceto as despesas com comida, Fabrícia paga tudo no cartão de crédito. “Divido em até 10 vezes para conseguir comprar”, completa.

Para o economista José Maurício Soares, do Departamento Intersindical de Estudos Socio econômicos (Dieese), Fabrícia tem razão de se preocupar. A população de baixa renda começou a sofrer ainda no ano passado, quando o preço de muitos alimentos iniciou uma subida vertiginosamente. “Houve problemas na safra do feijão e do arroz por causa da seca”, relembra. No entanto, Soares ressalta que há outros fatores que deverão continuar pressionando o custo dos alimentos, como a alta do petróleo, que eleva o preço de adubos e fertilizantes. “O principal impacto da inflação para os mais pobres já ocorreu, mas os preços, embora menos, devem continuar subindo”, adverte.

André Braz, coordenador do IPC na FGV, engrossa o coro dos economistas que apostam na alta dos preços. “O aumento da carne bovina, por exemplo, deve contaminar o frango por causa da substituição que muitas pessoas fazem”, detalha. Além disso, ele aponta possíveis reajustes no arroz, feijão, óleo de soja e tarifas de eletricidade e de telefone fixo para os próximos meses.

Como quase metade dos trabalhadores brasileiros ganha até dois salários mínimos, o peso da inflação para a população de baixa renda deve contribuir fortemente para a desaceleração da economia, uma vez que afetará diretamente o consumo interno. A avaliação é do economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto. “Essa alta da inflação afeta uma camada da população que normalmente está muito endividada. Isso compromete a renda disponível para novas despesas, freando o consumo”, explica.

A expectativa de mais reajustes assusta a vendedora Katiane Soares, 30 anos, que já mudou as marcas de biscoitos, iogurtes e leite consumidos por sua família. “Os preços estão exorbitantes”, reclama. Uma das alternativas adotadas por ela foi diminuir a compra de roupas. A tática pode ser boa, tendo em vista que o grupo vestuário disparou 5,43% nos últimos 12 meses. “Antes, eu comprava mais roupas em um intervalo menor. Hoje, resisto a meus desejos e compro a cada seis meses, quando realmente há necessidade”, diz. A economia feita nas lojas possibilita o pagamento da escola e do plano de saúde do filho. “Prefiro investir na educação e saúde dele e gastar menos com programas de lazer e coisas supérfluas”, afirma.

Fonte: Correio Braziliense
Diretoria Executiva da CONTEC
2008 – CONTEC 50 ANOS
 

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