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Congelamento de óvulos ganha espaço como benefício trabalhista

postado Assessoria Igor

Há alguns anos, a administradora de empresas Beatriz Vilarinho, 35, foi convidada pelo Mercado Livre a assumir uma posição em Minas Gerais. A executiva declinou e indicou o motivo: estava se preparando para ser mãe e uma mudança de estado não se encaixava nos seus planos.

Um ano mais tarde, surgiu uma nova oportunidade de contratação, desta vez, em São Paulo, cidade de Beatriz. Mais uma vez, no processo seletivo, ela deixou claro que tentava engravidar. “Eu tinha consciência que, para muitas empresas, esse é um fator que desestimula a contratação, mas fiz questão de ser objetiva”, afirma.

Para surpresa de Beatriz, ela não só foi contratada, como descobriu que a empresa tinha um programa que oferecia a oportunidade de congelamento de óvulos para as funcionárias com mais de um ano de casa. Ela esperou ansiosa completar os primeiros 12 meses como gerente sênior de transportes do Mercado Livre no Brasil. Congelou os óvulos em janeiro de 2022, diante da dificuldade de engravidar.

“Mas aí me deu um clique. Eu já estava com 34 anos e achei que era o momento. A empresa sabia da minha intenção e eu me senti acolhida. Em abril, três meses depois do procedimento, fiz a inseminação artificial”, conta Beatriz, que teve os gêmeos Gustavo e Maria Isabela em dezembro.

“É um benefício incrível, que eu nem sabia que existia no Brasil”, diz Beatriz, que está em licença-maternidade de seis meses. “Existe um certo tabu no meio executivo quando uma mulher deseja ser mãe, porque implicitamente esperam que você coloque a carreira como prioridade. Mas eu senti que a minha escolha foi respeitada”, afirma a executiva, que ainda mantém dois embriões congelados. “Para qualquer eventualidade”, brinca.

Empresas como Mercado Livre, Fleury e Meta (dona do Facebook) começam a oferecer a possibilidade de congelamento de óvulos como um benefício para atrair e reter talentos. Uma vez que as mulheres exercem a maternidade cada vez mais tarde, em geral para galgar espaço no mercado de trabalho, o congelamento de óvulos surge como alternativa para conciliar vida profissional e pessoal.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o total de mulheres com 30 anos ou mais que se tornam mães no Brasil passou de 24% em 2000 para 38% em 2020 (4% são mães com 40 ou mais). A maioria ainda tem filhos entre 20 e 29 anos (48,7%), mas em ritmo inferior ao do começo deste século, quando esta faixa etária respondia por 54,5%.

Com mais mulheres agendando a maternidade para depois dos 30, a oferta de congelamento de óvulos surge como um fator de atração e retenção de talentos, diz a psicóloga Karin Parodi, sócia da Career Center, consultoria em gestão de carreiras e desenvolvimento de lideranças.

“As organizações têm evoluído para serem mais diversas e inclusivas. Mas chegar ao topo exige dedicação –assim como a maternidade também exige. É muito positivo ver empresas considerando alternativas para que vida familiar e carreira não entrem em conflito”, diz a especialista, pós-graduada em administração em recursos humanos.

Para Karin, é louvável a iniciativa, embora ainda restrita a algumas empresas. “É um benefício caro.”

No Mercado Livre, por exemplo, o procedimento para congelamento de óvulos é oferecido apenas às funcionárias (e não às companheiras dos colaboradores), por meio de uma ajuda de custo de 75% do tratamento, no limite de até US$ 5 mil (R$ 26 mil). O custo dos medicamentos e da manutenção dos óvulos é da colaboradora, que tem a liberdade de escolher o médico e a clínica.

O custo total do congelamento de óvulos gira entre R$ 15 mil e R$ 20 mil –mas neste valor não está inclusa a fertilização, que dá origem ao embrião. Para manter os óvulos congelados, o custo é da ordem de R$ 1.000 ao ano.

Segundo Mônica Rosenburg, gerente de benefícios do Mercado Livre no Brasil, a possibilidade de congelar óvulos é oferecida para todos os escalões da companhia. “A mulher sente uma pressão para engravidar, conforme vai ficando mais velha”, diz. “Com o congelamento de óvulos, ela é livre para escolher o melhor momento.”

Quem deseja obter o recurso, precisa ter pelo menos 33 anos e estar ao menos há um ano na empresa de comércio eletrônico. As mulheres representam cerca de 45% da equipe do Mercado Livre, de 15 mil colaboradores. Na alta direção, elas somam 38%. Desde 2019, 15 funcionárias já usaram o benefício.

EMPRESAS ESTENDEM BENEFÍCIO AO CÔNJUGE

No grupo Fleury, especializado em medicina diagnóstica, o programa de fertilidade passou a ser oferecido em 2021, como um benefício voltado tanto a mulheres quanto a homens. A empresa banca até 40% do custo do tratamento, que neste caso envolve a captação de óvulos, fertilização in vitro, congelamento de óvulos, espermatozoides e embriões. Não estão inclusos os custos com medicamentos.

“Além do procedimento de fertilização, temos outras iniciativas cobertas pela empresa para apoiar os colaboradores no planejamento familiar”, diz Afrânio Haag, diretor de pessoas e cultura do grupo Fleury. Entre estes procedimentos estão a colocação de DIUs (método contraceptivo feminino), os exames de histeroscopia (que detecta infertilidade em mulheres), varicocele (que indica infertilidade em homens) e vasectomia (cirurgia para esterilização masculina).

Em todos estes procedimentos, incluindo o programa de fertilidade, a empresa investe cerca de R$ 500 mil ao ano, segundo Haag. Ao todo, são 13,5 mil funcionários, sendo 80% mulheres. Nos cargos de chefia, elas somam 68%. “Cuidar da saúde engloba fazer o melhor planejamento familiar”, diz o executivo. “Isso se reverte em melhoria do clima de trabalho, na segurança psicológica dos colaboradores, além de ser uma moeda de retenção de talentos, diminuição de rotatividade e de possíveis afastamentos”, afirma.

Na filial brasileira do conglomerado americano Meta, dono do Facebook e Instagram, é concedido o Benefício de Assistência à Fertilidade: um valor vitalício por funcionário, que pode ser usado para despesas com consultas, diagnósticos, preservação da fertilidade e armazenamento de tecidos, tratamentos de reprodução assistida (IIU e FIV) e todos os medicamentos relacionados ao processo de fertilidade.

O programa passou a ser oferecido em julho do ano passado e abrange não só os funcionários (homens e mulheres), mas seus respectivos parceiros.

“As empresas devem criar soluções de benefícios que atendam necessidades cada vez mais individualizadas, em sintonia com as exigências da sociedade hoje”, diz Thais Mingardo, gerente de remuneração e benefícios da Meta para América Latina.

Segundo Thais, o benefício é oferecido por meio de um parceiro, a Carrot, plataforma global de cuidados de fertilidade, que conta com uma rede de clínicas. “Não estamos falando só e exclusivamente de um reembolso, mas de um benefício que suporta a tomada de decisão e a jornada de planejamento familiar”, afirma. “A gente quer que essa mulher tenha o apoio psicológico e o acompanhamento médico necessário para ajudá-la ao longo de todo o processo.”

A Meta não informa quanto investe no programa, diz apenas que está “acima do que é oferecido pelo mercado”. A companhia também não revela quantos funcionários tem no Brasil ou sua divisão por gênero. Diz apenas que, em nível global, as mulheres representam 37% dos cargos de liderança.

‘INFERTILIDADE É DEMOCRÁTICA’

Na opinião do médico Matheus Roque, diretor científico da clínica de reprodução humana Mater Prime, o planejamento familiar é um direito constitucional, e os planos de saúde deveriam cobrir o procedimento de congelamento de óvulos.

“É algo que dá autonomia à mulher, ela tem maior poder de decisão sobre quando engravidar”, diz ele, que é membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida e da ESHRE (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, na sigla em inglês). “Muitas estão focadas na carreira ou ainda não têm um companheiro, mas precisam lidar com o fator tempo.”

O especialista lembra que, após os 35 anos, as chances de engravidar vão diminuindo naturalmente. “Conforme a mulher vai ficando mais velha, os óvulos envelhecem, aumentam os riscos de aborto espontâneo e de doenças cromossômicas”, afirma. “O congelamento de óvulos é uma alternativa para reverter os danos ao estoque e à qualidade desses óvulos”, diz ele, ressaltando que o tempo de congelamento não interfere na qualidade do óvulo.

O ideal é que o congelamento ocorra entre os 30 e 35 anos, afirma. “Mas já tive paciente que congelou os óvulos com 42 e se tornou mãe aos 44”, diz. Há também casos em que a mulher está na menopausa e engravida –mas com óvulos doados. “Já atendi uma paciente de 52 anos que deu à luz nesta condição.”

Matheus Roque também chama a atenção para a pouca discussão em torno da infertilidade masculina, o que indica um olhar machista sobre a dificuldade em engravidar. “A infertilidade é algo democrático, observada na mesma proporção entre homens e mulheres”, diz. “Mas para a sociedade, a dificuldade em engravidar ainda é vista como um problema feminino.”

Fonte: Folha de S. Paulo

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