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Fundos de pensão começam a se internacionalizar, mas ainda concentram 95% dos recursos no Brasil

postado Assessoria Sarah

Estudo da Mercer identifica tendência de entidades de previdência investirem mais em ativos no exterior para garantir aposentadorias complementares dos participantes no futuro

Títulos de renda fixa e ativos brasileiros seguem como as preferências dos fundos de pensão brasileiros na hora de investir os recursos que arrecadam dos participantes para garantir, no futuro, a aposentadoria complementar deles. A aversão ao risco é ainda maior em tempos de alta volatilidade na economia global e alta dos juros. No entanto, um estudo recente da consultoria Mercer identificou maior interesse das entidades de previdência complementar brasileiras em investimentos lá fora, ainda que num patamar muito inferior ao visto em outros países.

Historicamente, os fundos de pensão no Brasil privilegiam títulos e ações do mercado doméstico, mas o diretor da área de Wealth da Mercer Brasil, João Morais, destaca que a queda da taxa básica de juros (Selic) à mínima histórica de 2% ao ano no início de 2021 estimulou maior diversificação, já que as entidades possuem metas atuariais ambiciosas a serem cumpridas. Ou seja, precisam multiplicar seus patrimônios para garantir a aposentadoria dos participantes.

O relatório “Asset Allocation Insights 2022”, da Mercer, apontou que uma das saídas adotadas pelos gestores brasileiros foi fazer investimentos no exterior, o que sempre foi um componente muito marginal da alocação de recursos dessas entidades.

Em 2021, pela primeira vez a Mercer identificou um volume significativo de aportes de fundos de pensão brasileiros em ativos do exterior: 5,1% do patrimônio total. No entanto, essa proporção ainda é muito baixa em comparação com a média de outros países, inclusive emergentes como Chile (77,9%), Colômbia (68,6%) e México (63,3%).

O relatório da Mercer incorpora informações sobre US$ 5,9 trilhões de ativos de fundos de pensão corporativos e governamentais em 15 mercados na América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. O estudo destaca que os sistemas de previdência aberta e fechada no Brasil continuaram a crescer e ultrapassaram R$ 2,2 trilhões em 2021.

Segundo o relatório, a renda fixa concentrou 71,7% dos investimentos das entidades de previdência no Brasil em 2021. O restante é aplicado em ativos nacionais de renda variável, como ações, e do exterior.

Um obstáculo para o crescimento dos aportes fora do Brasil, apontam analistas, é que a legislação que regula os fundos de pensão no no país estabelece um teto de 10% para alocação internacional, bem menor que o visto em outros países da América Latina.

Além disso, com a alta da inflação e a recente escalada dos juros para combatê-la — a Selic hoje está em 13,75% ao ano —, o movimento foi freado, diz Morais. Ainda assim, ele avalia que a tendência é de maior exposição dos fundos de pensão brasileiros a outros mercados:

— Vimos alguns movimentos, mas não é algo que se faça do dia para o outro, e ainda há um grande campo para ser alcançado. Há uma série de questões como em que regiões e classe de ativos investir. Temos uma alocação em ativos internacionais bastante modesta, mas isso é muito subproduto desses anos e anos de juros reais elevados.

Em 2021, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), os fundos de pensão no Brasil tiveram déficit de R$ 36,4 bilhões.

Perspectiva de queda dos juros

O resultado foi impactado pelo recuo da Bolsa, com a queda de 11,93% do Ibovespa no ano passado, e pela marcação a mercado em títulos de renda fixa devido as sucessivas elevações de juros por parte do BC para conter a inflação.

A perspectiva de desaceleração da inflação no próximo ano e o fim do ciclo de altas de juros no mercado interno são avaliados como positivos para o futuro desse mercado com maior estímulo à diversificação.

Para Morais, a busca pela internacionalização também é estimulada pela maior oferta de produtos que dão acessos aos fundos a mercados internacionais. Investir em outros países faz sentido como forma de aproveitar a rentabilidade de setores econômicos de maior expressão lá fora, como o de tecnologia. É a mesma lógica que tem atraído fundos de pensão de países desenvolvidos para negócios em áreas como infraestrutura, energia e agronegócio no Brasil.

— O juro mais elevado nesse momento leva os investidores obviamente a pensar do ponto de vista de timing, mas não vemos isso como uma reversibilidade dessa maior diversificação. Até porque há muitos setores da economia lá fora que não estão disponíveis no nosso mercado — diz o consultor.

O diretor de Investimentos da MAG, Claudio Pires, afirma que, em geral, o investidor brasileiro tem o perfil de privilegiar os investimentos em renda fixa, de baixo risco, e esse comportamento é refletido na gestão dos fundos.

— O que está por trás disso é o nosso patamar elevado de taxas de juros — diagnostica.

Mesmo na hora de correr risco, os fundos brasileiros preferem a Bolsa e outros investimentos no mercado doméstico. Morais, especialista da Mercer também ressalta que o fato de o Brasil possuir um mercado de capitais mais avançado que seus pares na América Latina oferece mais opções para se investir internamente.

A regulação também influencia. Além do Brasil, a Índia (com 88,7%) e a Argentina (com 76,6%) detêm as maiores fatias de ativos de previdência em renda fixa, enquanto Hong Kong (67%) e África do Sul (60,6%) apresentam as maiores alocações em ações.

No panorama global, a exposição a ações aumentou nas carteiras dos fundos de pensão, passando de 36,1% do patrimônio em 2020 para 38,5% em 2021. No caso da renda fixa, ocorreu leve recuo de 50,6% para 49%. Desde o início do levantamento dos dados, em 2013, a participação em ações subiu 6,5%, enquanto na renda fixa, ocorreu queda de 7,7%.

As carteiras de renda fixa continuam com um viés doméstico muito maior, embora a exposição ao exterior tenha aumentado de 15,1%, em 2013, para 29,7% no ano passado. Como destaca o relatório, um viés doméstico na renda fixa pode muitas vezes ser justificável devido às taxas de juros locais mais altas, o papel defensivo desses ativos nas carteiras, e o maior impacto da volatilidade da moeda e custos potencialmente altos de hedge (instrumento de proteção) de moeda estrangeira.

Particularmente na América Latina, a renda fixa predomina com 62,8% das alocações contra 49% da média da pesquisa, em grande parte impulsionada por Brasil e México. O percentual alocado em ações é de 27,9%, contra 38,5% da média mundial. No caso das ações, há maior exposição em ativos estrangeiros, com cerca de 55,8% investidos fora do mercado doméstico ante 49% da média geral da pesquisa.

Fonte: O Globo

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