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Negociações na COP27 esbarram em disputas de financiamento e Guerra na Ucrânia

Dinheiro para que países pobres se adaptem às mudanças climáticas deve ser assunto-chave da conferência, urgência reforçada pelo anfitrião africano

postado Assessoria Igor

O mundo chega à COP27, a conferência climática da ONU que começa no domingo e vai até o dia 18, em um momento complexo. A invasão russa na Ucrânia já dura nove meses e causa uma crise energética que faz a Europa olhar de novo para os combustíveis fósseis. A insegurança alimentar cresce e a disputa sino-americana por hegemonia tensiona a relação entre os dois maiores poluidores do planeta. Tudo isso em meio a alertas cada vez mais firmes de que, sem ações climáticas coletivas, imediatas e contundentes, o planeta ruma para um cataclismo.

A edição de 2022 da cúpula será realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito, sob o lema “juntos pela implementação” — ou seja, pôr em prática os compromissos firmados no evento de 2021, em Glasgow. Há um ano, os 193 países signatários do emblemático e vinculante Acordo de Paris de 2015 precisaram revisar pela primeira vez as metas voluntárias de redução das emissões de gases-estufa, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês).

Na cúpula do ano passado, firmaram pactos também para conter o desmate e as emissões de metano, gás até 80 vezes mais poluente que o dióxido de carbono se considerado um período de 20 anos, além de cortarem o financiamento de combustíveis fósseis no exterior. Prometeram ainda traçar objetivos mais fortes para cumprirem até o fim da década, porém só 26 o fizeram.

O mundo atualmente está na rota para ver um aumento de 2,4°C na temperatura média até 2100, quase um grau a mais que a meta de 1,5 °C em comparação aos níveis de antes da Revolução Industrial. E esta é a melhor das hipóteses, levando em conta que as promessas serão mais do que palavras. No ritmo atual, a trajetória aponta para preocupantes 2,8°C.

A maior das expectativas para o evento é de ações concretas não só para mitigação — ou seja, reduzir as emissões —, mas principalmente de financiamento para que os países se adaptem à nova realidade. O assunto ganha ainda mais urgência pelo fato de a conferência deste ano ser sediada na África, continente que por motivos geográficos e socioeconômicos é um dos mais vulneráveis ao aquecimento global, apesar de sua contribuição pífia para as emissões.

A Presidência egípcia deixa claro que a questão é essencial: o bloqueio do financiamento climático, em particular de verbas para compensar as perdas e danos sofridos pelos países mais pobres, é determinante para o sucesso da cúpula. Entraves podem inclusive impedir o avanço de outros temas-chave.

Entregas atrasadas

O atraso na entrega de US$ 100 bilhões anuais para o Fundo Verde do Clima entre 2020 e 2025 já sinaliza como o tema é contencioso. Na contagem mais otimista, o mundo estava US$ 17 bilhões aquém do objetivo há dois anos, e a expectativa é que a meta só seja alcançada em 2023. A partir do meio da década, a ONU estima que os países em desenvolvimento precisarão de até US$ 340 bilhões anuais em 2030 apenas para adaptação, mais que dez vezes o fluxo atual.

Países ricos tentam não dar o braço a torcer: possivelmente encontrariam dificuldades para aprovar o dinheiro em seus Legislativos, além de temerem que abrir os bolsos se equiparasse a uma admissão de culpa por suas emissões históricas, abrindo caminho para pedidos de reparação. Insistem que as economias emergentes também devem ser responsabilizadas, diante de suas emissões.

Como os objetivos desta COP dizem mais respeito à implementação e prestação de contas do que a promessas chamativas, a conferência deve despertar menos atenção que a do ano passado. Ainda assim, participarão 90 chefes de Estado — entre eles o francês Emmanuel Macron, a recém-empossada premier italiana Giorgia Meloni e o americano Joe Biden.

Os dois primeiros dias do evento são destinados a reuniões dos chefes de Estado e governo, mas o democrata vai apenas no dia 11, já que a cúpula dos líderes coincide com as eleições legislativas americanas. A expectativa é que Biden exalte seu trilionário pacote socioambiental, aprovado após mais de um ano de bloqueios de seus correligionários após cortes que o reduziram a uma fração do inicialmente planejado.

Presenças e ausências

Quem também confirmou presença após receber um convite da presidência egípcia foi o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo informações apuradas pelo GLOBO, Lula deverá ir à conferência na segunda semana, conciliando sua agenda com as dos governadores amazônicos que também farão a viagem para o balneário no Mar Vermelho.

Após quatro anos de políticas ambientais desastrosas — o desmate na Amazônia cresceu 73% nos três primeiros anos do presidente Jair Bolsonaro no governo —, o petista sinaliza que o assunto voltará a ter protagonismo na agenda nacional.

As ausências do chinês Xi Jinping, cujo país é sozinho responsável por cerca de 27% das emissões globais, e do russo Vladimir Putin, contudo, deverão ser sentidas. A guerra travada pelo Kremlin em território ucraniano também é chave para entender a conferência: os cortes russos na venda de gás natural para a Europa causam uma crise que faz o preço da energia e a inflação dispararem.

Para contê-la, países como a Alemanha adiam o abandono do carvão, e a dependência europeia dos combustíveis fósseis fica exposta para a comunidade internacional. O cenário enfraquece a capacidade europeia de demandar compromissos mais contundentes do mundo em desenvolvimento. É também, no entanto, uma oportunidade de acelerar a transição verde.

Se o fato de COP ser no Egito reforça as pautas dos países mais pobres do planeta, é também alvo de críticas devido às sistêmicas violações de direitos humanos no país comandado por Abdel Fattah El-Sisi. Os direitos ao protesto e à liberdade de expressão vêm sendo maciçamente reprimidos desde a Primavera Árabe, em 2011, e, segundo a Anistia Internacional, até o fim de outubro ao menos 118 pessoas foram presas por protestos relacionados à COP.

Fonte: O Globo

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